Nos últimos anos, academias de jiu-jitsu passaram a receber um público que até pouco tempo era incomum, empresários, fundadores de startups e CEOs de grandes empresas. O fenômeno não é casual, tampouco passageiro. Ele reflete uma mudança profunda na forma como a alta liderança tem buscado desenvolver competências essenciais para um mercado cada vez mais instável, competitivo e imprevisível.
Acostumados a ambientes controlados, salas de reunião climatizadas, relatórios e decisões estratégicas de longo prazo, esses executivos encontram no tatame um espaço radicalmente diferente, onde o erro é imediato, a consequência é concreta e o aprendizado ocorre sob pressão real. No jiu-jitsu, não há hierarquia corporativa, cargo ou status que ofereça proteção. Há apenas técnica, preparo físico, leitura do outro e controle emocional.
Eu diria que esses executivos buscam a prática do jiu-jitsu como uma espécie de “MBA emocional”. Se a formação tradicional ensina a estruturar negócios, analisar cenários e administrar recursos, o jiu-jitsu ensina a permanecer lúcido quando tudo aperta, a perder sem colapsar, a ajustar a rota rapidamente e a insistir com método. É um treinamento contínuo de resiliência, paciência estratégica e tomada de decisão sob estresse, exatamente as habilidades mais exigidas nos níveis mais altos de comando.
A comparação entre o esporte e o mundo corporativo surge de forma quase inevitável. No tatame, estuda-se o adversário antes de agir, controla-se posição antes de atacar, economiza-se energia para não comprometer o final da luta e aceita-se que, às vezes, recuar é a única forma inteligente de avançar depois. No mercado, a lógica é a mesma, análise de concorrência, gestão de riscos, preservação de capital e escolhas no momento exato. Em ambos os ambientes, força bruta sem estratégia costuma levar à derrota.
Outro fator decisivo é psicológico. Executivos vivem cercados por estruturas que filtram críticas, amortecem fracassos e reforçam a autoridade. No jiu-jitsu, ocorre o oposto. O praticante é constantemente colocado em situações de vulnerabilidade, aprende a ser controlado, finalizado e superado por pessoas menores, mais jovens ou menos experientes. Essa vivência impõe humildade prática, algo relevante em posições de poder.
Há ainda o impacto direto na saúde mental. A rotina executiva moderna é marcada por excesso de estímulos, decisões contínuas, pressão por resultados e dificuldade real de desconexão. O jiu-jitsu funciona como um antídoto físico e mental, durante o treino, não há espaço para celular, e-mails ou preocupações externas. A atenção precisa ser absoluta. Esse foco integral produz uma espécie de silêncio interno que muitos descrevem como mais eficiente do que qualquer técnica formal de relaxamento.
Também não passa despercebido o efeito social da prática. O tatame se tornou um ambiente de convivência onde títulos desaparecem e as relações se constroem pela confiança, pelo esforço compartilhado e pelo respeito mútuo. Sem gravatas, discursos ensaiados ou cartões de visita, surgem conexões autênticas que, não raramente, se transformam em parcerias profissionais sólidas.
Por tudo isso, o crescimento do jiu-jitsu entre empresários não deve ser lido como simples tendência esportiva. Trata-se de uma resposta concreta às exigências de um novo modelo de liderança. Se antes se valorizava o executivo agressivo, inflexível e sempre dominante, hoje ganha espaço aquele que sabe suportar pressão, reconhecer limites, aprender com a derrota e manter clareza em cenários hostis.
O terno continua importante, os diplomas seguem relevantes e a experiência técnica permanece indispensável. Mas, para um número crescente de líderes, é sobre o tatame que se aprende aquilo que nenhum curso formal consegue ensinar com a mesma intensidade, como não perder o controle quando tudo parece estar prestes a sair do controle.
Por Esdras Mendes, Bacharel em Direito, Professor Faixa Preta 3o grau de Jiu-Jitsu, campeão brasileiro e pai de Maitê.


