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Notícias | Mundo
02.09.2017 - 09h23 | Eldení Alves
Sem tropas da ONU nas ruas, haitianos mantêm rotina com preocupação
 
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A rotina dos haitianos não mudou depois que as tropas das Nações Unidas deixaram de estar no controle da segurança do país. O G1 saiu pelas ruas de Porto Príncipe nesta sexta-feira (1º) e encontrou pessoas que nem sabiam que os soldados da missão de paz da ONU liderada pelo Brasil haviam encerrado suas atividades no dia anterior. Outras, porém, demonstraram preocupação com o que irá acontecer com o encerramento da operação internacional de 13 anos.

Na quinta-feira (31), o batalhão militar brasileiro no Haiti finalizou sua participação na missão e, agora, só ficará dentro do quartel em desmobilização.

A reportagem percorreu, durante quatro horas nesta sexta-feira (1º), diversas regiões da capital, entre eles Petion Ville, Bel Air, Centre Ville, Cité Militaire, Delmas, Tabarre e a região portuária. Na capital reside quase um terço da população do país. E a única diferença nas ruas é a inexistência de capacetes azuis da ONU. Carros e agentes da polícia haitiana foram vistos em vários momentos, em praças, próximo a prédios públicos, e tentando controlar o trânsito caótico.

O tráfego em Porto Príncipe é carregado de tap-taps, veículos coloridos feitos a partir da modificação de picapes e que são regulamentados pelo governo para o transporte de pessoas. Cada tap-tap faz trajetos que ligam bairros e demoram em média 30 minutos. Com US$ 1 é possível fazer três viagens.

Não há sinalização e as regras de trânsito também parecem inexistentes. Ninguém usa cinto de segurança e a lei que vale, como disse um haitiano, é "a do braço". Pessoas em motos usam capacete apenas no bairro nobre de Petion Ville.

Como as aulas só serão retomadas na segunda-feira (4), muitas crianças andavam pela manhã com as mães nas ruas. Perto do antigo Palácio Nacional, em Centre Ville, que foi derrubado no terremoto que devastou o país em 2010, a vendedora Pierre Claudie, de 38 anos, voltava para casa do trabalho com a filha Métellus Markeline Sans, de 8 anos. A mãe, que diz que a filha cresceu vendo tropas da ONU nas ruas e que agora teme o desconhecido.

Ela trabalha vendendo cosméticos e calçados em um grande mercado, numa região que foi devastada pelo terremoto, e que era área coberta pelo Brasil desde que a ONU chegou no país, em 2004.

"A Minustah ajuda bastante em segurança. Eu não sabia que hoje eles já não estavam aqui, mas não acho isso positivo. Para mim não vai ser bom, porque não posso trabalhar lá se não tiver segurança", afirma Pierre Claudie. Ela lembra que, diariamente, tropas brasileiras passavam a pé e em carros pela área.

"Acho que agora as vendas vão cair, porque não tem como trabalhar sem segurança e a polícia não anda lá", explica.

 

"Acho que as vendas vão cair. Não tem como trabalhar sem segurança"
Pierre Claudie, vendedora

 

O professor de escola secundária Bertrand Jeauty, de 38 anos, diz que a situação de segurança já está piorando e que teme o que pode acontecer. "É a Minustah que segura o governo, quando a Minustah está aqui não tem golpe de Estado. Tenho medo porque ninguém sabe para onde vamos", disse. "O país foi muito bom no passado, na época do Duvalier (ditador que esteve no poder de 1971 a 1986), a cidade tinha vida noturna. Hoje em dia não tem luz, não tem nada. Até para sair na rua precisa ter cuidado", dz.

O professor acha que a polícia haitiana não conseguirá dar conta do recado. "São bem preparados, mas com história de corrupção".

 

"Quando a Minustah está aqui, não tem golpe de estado"
Bertrand Jeauty, professor

 

Já o motorista Joseph Lucknert entende que a missão da ONU trouxe problemas para o Haiti, como casos de cólera que deixaram cerca de 8 mil mortos. A suspeita é que tenham sido as tropas internacionais que introduziram a doença no terreno. "A polícia existia mesmo antes da Minustah. Ela tem delegacias, acabou com sequestros. Vão aprender a lidar", acredita.

 

Embaixada do Brasil

 

O oficial da chancelaria Tarcisio Dias Vieira era o que recebia, nesta sexta-feira, na Embaixada brasileira em Porto Príncipe, os pedidos de haitianos que desejam migrar para o Brasil. São em média 50 novas solicitações por dia, que demoram 120 dias para serem analisadas.

"Aqui na Embaixada não muda nada com a saída da missão, o trabalho continua normal. Eu, pessoalmente, acho ruim por questões de segurança, porque se acontece algo grave, tínhamos um batalhão aqui perto. Estou curioso para saber como vai ser de agora em diante", afirmou.

 

Exército

 

O primeiro-ministro haitiano, Jack Guy Lafontant, anunciou que trabalha para a recriação do Exército do país, dissolvido pelo presidente Jean Bertrand Aristide em 1994 mas ainda previsto na Constituição. Segundo ele, o governo acredita que conseguirá manter a segurança do país após a saída da ONU e que contará com o apoio do novo Exército para isso.

 

Fim da missão de paz da ONU no Haiti (Foto: Arte G1)Fim da missão de paz da ONU no Haiti (Foto: Arte G1)

 

G1

 

 
 
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